Simpósio Internacional Mucho, Mucho Amor. A complexidade midiática de Walter Mercado

Fecha/Hora
Date(s) - 15/04/2021 - 16/04/2021
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Ubicación
Brasil

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+ info: Simpósio

Sob os efeitos do documentário Ligue Djá, o lendário Walter Mercado, lançado pela Netflix em 2020, este simpósio tem como objetivo discutir, a partir de diferentes abordagens teórico-metodológicas, a complexidade midiática do porto-riquenho Walter Mercado (1932-2019), figura hiperbólica dos anos 1970-1980 nas Américas. Entre as provocações acionadas por sua presença midiática, interessa discutir: midiatização do esoterismo, misticismo, astrologia e espiritualidade; genderbending do corpo andrógino; envelhecimento como quimera a ser vencida e a iconofagia como elixir da imortalidade; produção, circulação e consumo de audiovisualidades em contextos massivos e digitais; transmissão de memória por arquivo; performances em suas múltiplas acepções; estéticas pop latino-americanas; discussões sobre camp e queer/cuir; latinidades diaspóricas formatadas para exportação Sul-Sul e Sul-Norte; tensões entre um orientalismo camp e o neoliberalismo; entre outras provocações.

Astrólogo e personalidade da TV, Mercado foi um bem-sucedido empresário de um empreendedorismo espiritual global que, segundo Tace Hedrick (2013), mobilizou uma “sabiduría oriental”, combinação de astrologia, reencarnação e conhecimento tântrico em uma versão que a autora chama de “orientalismo queer”. O astrólogo emerge em uma América Latina na qual, desde a metade do século XIX, passam a transitar conhecimentos orientais em fricção com práticas espirituais locais bastardas do espiritismo kardecista, catolicismo caribenho e santería afro-caribenha, culminando, na “comodificação espiritual transnacional” dos anos 1980 e a ascensão New Age, em Porto Rico. Mercado, então, constrói um “capital espiritual” (HEDRICK, 2013)  que lhe dá acesso a consumidores com aspirações espirituais, de estilo e ávidos por ascensão socioeconômica, interessados em seu “queer transcendental” que articula sagrado, místico e sofisticação tanto quanto camp e kitsch. Performatiza, assim, o que Diana Taylor (2013) chamou de “espaço psíquico latino-americano”.

Sua imagem, que declarava ter espelhado de um príncipe da Índia – uma Índia que não é um país ou uma cultura, mas uma terra mágica imaginada -, era alvo de especulações da imprensa por sua ambiguidade performativa, uma androginia que ele reclamava para si como efeito de sua transcendência oriental ao combinar yin e yang, masculino e feminino, e uma sexualidade cósmica, alcançada por orgasmos tântricos acionadores de um discurso neo-tântrico. Esse modo de produção de si borroso, que se afirma vigoroso e, ao mesmo tempo, joga sobre si um véu de misticismo exótico, sinaliza para discussões de um queer latino-americano tensionado a trânsitos espirituais e marcadores locais de classe, raça, gênero, sexualidade e, inclusive, geográficos, pois, como afirma Hedrick (2013), é ardilosa a entrada dessa figura queer em lares tradicionais latino-americanos. São bem-vindos, então, aportes teóricos de autores como José Fernando Serrano-Amaya (2006), Paco Vidarte (2019), José Esteban Muñoz (1999), Judith Butler (2003) e Paul B. Preciado (2008).

Há ainda espaço para discussões sobre estratégias mercadológicas vinculadas a uma latinidade presumida, acionando valores tradicionais e neoliberais de bem viver, triunfo, sucesso e ascensão socioeconômica. Atributos desejados por uma classe média latino-americana em ascensão assim como por classes populares e de novos ricos desejos por ostentar ideais modernos de sofisticação e bom gosto. Essas, de acordo com Hedrick (2013), viam em Mercado um homem viajado, culto, com bom gosto e capaz de articular crenças espirituais de um sudeste asiático esotérico e exótico.

No âmbito das materialidades da comunicação e sua produção de presença (GUMBRECHT, 2010), autores como Edgar Morin (1957) e Norval Baitello Junior (2014) contribuem para se pensar os fluxos de imagens da persona midiática de Walter Mercado e seu consumo em contextos de tecnologias de funções massivas e digitais. Estas últimas, inclusive, facilitadoras de processos de remediação (GRUSIN; BOLTER, 1999) responsáveis por alimentar culturas de fãs e memificação.